quinta-feira, 27 de agosto de 2015

sábado, 1 de agosto de 2015

O negrinho do pastoreiro - Zilka Salaberry

 

Como é mês de agosto e faz um pouco de frio, vou contar uma história que aconteceu nos pampas do sul do país, talvez em Pelotas. Começa não muito bem, pois nesses pampas havia um homem muito rico, mau e sovina: nem restos de comida ele dava. Seu filho eraum guri que herdara sua ruindade. Esqueci de dizer que a história se passa no tempo da escravidão. E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamadoexatamente de Negrinho.

Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira. O homem ruim tinha um cavalo baio muito bonito e veloz e um estancieiro vizinho desafiou-o dizendo: será que esse cavalo baio é bom na corrida? Já se sabe quem iamontar o baio sem sela: o Negrinho, é claro. Mas infelizmente o baio perdeu na corrida e o Negrinho levou uma surra que eu vou te contar. E como se não bastasse, mandaram-no tomar conta da tropilha do patrão. 

Era de noite, Negrinho estava todo machucado e com medo dos bichos que pudessem se achegar. Mas Nossa Senhora ajudou-o a adormecer. Eis senãoquando ouviu- se um tiro de espingarda no ar: os animais se assustaram e se dispersaram pelas campinas. O estampido partira do filho do patrão. Masquem levou nova surra foi o Negrinho. Mandaram-no procurar os cavalos. Enquanto isso a noite estava ainda mais fechada. E não se via cavalo nenhum. Aí o Negrinho pegou um toco de vela que iluminava sua madrinha no oratório do homem ruim. E correu pelas coxilhas montado no baio, à procura dos cavalos dispersos. 

Aconteceu um pequeno milagre: cada vez que a vela abençoada pingava cera no chão, milhares de velinhas iam aparecendo para iluminar a noite. Comesse grande auxílio, o Negrinho encontrou os cavalos. E cansado adormeceu, O homem ruim tinha raiva até do sono do Negrinho e mandou um outro escravo dar chicotadas no garoto e colocá-lo junto de um formigueiro, só para chatear o menino.

Depois o patrão quis ver o moleque que devia estar todo roído de formigas. Mas junto do formigueiro estava o Negrinho perfeitamente sadio, com o baio e a tropilha. Espantado o homem ruim, mais espantado ficou, porque viu junto do escravinho a Nossa Senhora protegendo o Negrinho, O homem ruim se ajoelhou de medo e não de bondade. Quanto ao Negrinho, montado no baio, seguia corrida com a tropilha para sempre.

Para sempre quer dizer que até hoje continua a corrida.

E quem quiser, vê-lo. Quero dizer: se quiser muito mesmo. Só que durante uns dias de cada ano Negrinho some. Deve estar conversando com suas amigas formigas.

Qualquer gaúcho conhece esta história e muitos acham que o Negrinho ajuda a encontrar o que se perdeu, seja objeto, seja amor, seja felicidade sumida.

Será que a moral desta história é que o bem sempre vence? Bom, nós todos sabemos que nem sempre. Mas o melhor é a gente ir-se arranjando como pode e dar um jeito de ser bom e ficar com a consciência calminha.
Clarice Lispector


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Curupira, o danadinho

Neste mês de julho vou- vos contar história
esquisita de um ser mais esquisito ainda. Os índios
chamam-no de Curupira. Começo por descrevê-lo: é
feio que nem o Tinhoso e peludo que nem um urso,
mas pequeno. Já se viram dentes verdes? Pois o
Curupira tem. Sem falar nas orelhas agudas. Ele não é
caranguejo, porém seus pés são virados para trás,
como se ele fosse andar de marcha a ré. Ninguém nunca sabe onde ele está. Fugindo sempre? Talvez. E de repente surge em assustadora aparição. Quando vai embora não deixa rastro na terra. Só se ouve um sussurro na mata — podem estar certos: é ele. E além do sussurro ouvem-se as marteladas no tronco das árvores. E que, sem ninguém lhe mandar, ele as vigia para saber se agüentam tempestades e borrascas.
Que ser misterioso. Pois que também é sábio: conhece, ao olhar apenas, as plantas que curam doença de bicho. Porque ele protege os animais contra malefícios e caçadores. E faz tudo isso sem deixar marcas. Só fica no ar um perfume de mata virgem que é o seu. Mas o danadinho raramente auxilia pessoas, esse pequeno
moleque.
As vezes simpatiza com um ou outro caçador e logo o convida para morar na floresta. Como o Saci-Pererê, também pede fumo e em troca do que lhe é dado ensina os segredos da selva.
Também sabe se vingar dos índios que, com flechas, ferem um bicho indefeso. Então o Curupira o atrai para caminhos sem fim e eis o caçador enganado, tonto e perdido. É verdade que pede antes a um caçador que não mate animais dos que vivem em grupo, porque o grupo ficará com saudade deles. Mas, ai de nós se o índio não cede! Não tem o perdão do Curupira. Espalha fogo e quase deixa o índio bem assado. Os caçadores temem esta espécie de gnomo monstro e suas vinganças.
Tudo o que ele pede, se não dão atrai sorte ruim.
Me dá fumo! diz o Curupira para o índio jangadeiro. E se este nega, a jangada é virada para o fundo das águas. Tem qualquer parentesco com o Saci-Pererê.
Mas enquanto este gosta de se divertir com os outros, com o Curupira não se brinca Por exemplo: coitado de quem penetra na sua mata que serve de casa. A vingança não tarda.
Não se sabe é explicar por que ele é tão bom com os bichos E, se não está em guerra, vive muito bem nas profundezas distantes da floresta.




Clarice Lispector 

(Doze Lendas Brasileiras)


Editora Nova Fronteira







segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma festança na floresta



Estamos no mês de junho, as fogueiras de São João se acendem, balões sobem, já há friozinho e aconchego. Dá para comer batata-doce à meia-noite com café tinindo de quente.
Mas me disseram que a festa não é só nossa. Pois não é que ia haver uma festa da bicharada na selva? Ecalculei que isso acontecesse no mês de nossos próprios folguedos. Pelo menos é o que garantem os índios da tribo Tembé.
Foi assim: os animais das matas até que estavam ocupados e calmos em relação a seus deveres, pois o dever do animal é existir. Mas eis senão quando surgiu no ar um boato que logo se espalhou alvissareiro num diz-que-diz assanhado. Vinha esse boato trazido pelo canto do sabiá. Como o sabiá, a quanto se sabe, canta pelo mero prazer de cantar, ficaram os bichos em dúvida sobre se era ou não verdade.
E — de repente — começou a chover convite para a tal festança. Quem convidava não dizia quem era, mas todos desconfiaram que a idéia vinha da rainha das selvas brasileiras, a onça, manda-chuva que era.
Todos os bichos foram convidados, garantindo-se que na ocasião seria abolida a ferocidade. Até a mãecoruja, que de tão séria e sábia até óculos usava, foi convidada com os seus filhotes.
Quanto às filhas do macaco, doidas para namorar e enfim casar, enfeitaram-se tanto e com tantas bugigangas que pareciam umas — é isso mesmo,pareciam umas verdadeiras macacas.
E quem pensa que a cobra faltou por ser tão nojenta está enganado: apareceu fazendo salamaleques com o corpo escorregadio para chamar atenção.
A noite estava toda iluminada por milhares de vagalumes, pela lua silenciosa e pelas estrelas úmidas.
Quanto à orquestra, fiquem certos de que era da melhor qualidade: uma turma de tucanos encarregou-se de tocar em valsa os mais belos grunhidos da mata.
A bicharada estava acesa de alegria, O papagaio foi muito aplaudido quando berrou uma canção alegre, e as macacas casadoiras, penduradas pelos rabos nas árvores, estavam certas de que eram grandes bailarinas.
Bem, a coisa estava no máximo de animação. Mas a onça estava inquieta, doida para atacar. E como não fosse permitida nessa noite a carnificina, ela começou a ser feroz com a língua viperina. Então cantou: “Dona Anita é gorda e roliça que nem uma porca e tem cor de rato.” A Anta danou-se e retirou-se.
A onça, vendo que tinha tido sucesso, cantou uma ofensa horrível contra o jabuti, dizendo que este estava coberto de mosca varejeira. Tanto que o jabuti ofendido foi embora. Depois a onça falou: “Vejam que decote indecente o das filhas do macaco.”As macacas ficaram fulas da vida e só não saíram de lá porque a esperança de arranjar noivo é a última que acaba.
Mas acontece que havia entre os animais o deus dos veados, Arapuá-Tupana, que resolveu acabar com a empáfia da onça e para vencê-la pôs-se a cantar. Os bichos, sabendo que quando o ouvissem morreriam, taparam os ouvidos. Arapuá-Tupana afinal foi embora e a bicharada não morreu.

É. Mas os animais haviam perdido o dom da fala, ninguém secompreendia mais. E isso até o dia de hoje.
Porque grunhir ou cantar não diz nada. Tudo por causa da onça linguaruda.


Clarice Lispector 
(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira




quinta-feira, 30 de abril de 2015

O pássaro da sorte



Trata-se do uirapuru, pássaro encantado da sorte e que tem como moradia as ricas florestas da Amazônia.
A história é um pouco triste. Mas o canto dessa ave é tão plangente e mavioso que vale a pena contar.
Começa com um índio tocando flauta na selva. E as índias jovens ouviam-no. Daí para procurar ver quem era o guapo índio que a tocava foi um só passo.
O segundo passo foi encontrar o músico e cair para trás com uma bruta decepção. Elas, tolinhas, achavam que coisa bonita só pode vir de gente bonita. E caprichosas, malcriadas, empurraram o índio feio para fora daclareira. Humilhado, ele então fugiu.
Na mesma hora as índias ouviram uma outra flauta tocada com delicadeza e doçura. E pensaram com esperança que talvez o tocador dessa nova flautafosse um índio bonito. Seguiram pelas sendas da floresta, guiadas pelo cântico que cada vez parecia mais próximo. E não é que depararam, não com um índio, mas com um passarinho pousado num galho de árvore frondosa? Era o pássaro uirapuru. Uma das índias, a mais formosa e esguia, era também a melhor caçadora. E, como as outras, quis ferir o pássaro para que ele não fugisse e só cantasse para ela. Com arco e flecha, preparou-se. E, é claro, a ave caiu do galho.
Agora vem uma surpresa, tanto para as índias como para nós: uma vez por terra, o pássaro transformou-se num rapaz belíssimo.
Este índio, com um sorriso manso, dirigiu-se para a sua caçadora, enquanto todas as outras índias rezavam pela sua atenção e amor.
Estava tudo bem. Mas a primeira flauta começou a soar novamente: era a do índio feio.
As moças sabiam que ele queria se vingar dos maus tratos e procuraram rodear o índio bonito para escondê-lo. Mas o indio feio mandou rápido sua flecha, em direção do peito varonil do rival, só para assustá-lo.
E não é que aconteceu um encantamento milagroso?
Aconteceu, sim: o rapaz bonito se transformou num pássaro invisível, mas presente pelo seu canto. E as índias passaram, mesmo sem ver, a ouvir o trinado feliz.
Como é que se espalhou que o uirapuru dá sorte?
Ah, isso não sei, mas que dá, dá!

Clarice Lispector

(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira


segunda-feira, 20 de abril de 2015

Canção para uma valsa lenta

Minha vida não foi um romance…
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa… de encanto… de medo…

Minha vida não foi um romance,
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance…
Pobre vida… passou sem enredo…
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance…
Ai de mim… Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso… de um gesto… um olhar…







Mario Quintana
(In, “Canções”, segundo livro de Mario Quintana, 
Ed. Globo e 
“Melhores Poemas de Mario Quintana, Global Editora”
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. p. 156)