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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A perigosa Yara

Ao cair de todas as tardes, a Yara, que mora no fundo das águas, surge de dentro delas, magnífica.Com flores aquáticas enfeitaentão os cabelos negros ebrinca com os peixinhos de escapole-escapole. Mas nomês de maio ela aparece ao pôr-do-sol para arranjar noivo.
As mães se preocupam com seus filhos varões, sabedoras de que a Yara quer noivos. Mas para os filhos, Yara é a tentação da aventura, pois há rapazesque gostam de perigo.
À medida que a Yara canta, mais inquietos e atraídos ficam os moços, que, no entanto, não ousam se arriscar.

Sim, mas houve um dia um Tapuia sonhador e arrojado. Pensativamente estava pescando e esqueceuse de que o dia estava acabando e que as águas já se amansavam. Foi quando pensou: acho que estou tendo uma ilusão. Porque a morena Yara, de olhos pretos e faiscantes, erguera-se das águas. O Tapuia teve o medo que todo o mundo tem das sereias arriscadas — largou a canoa e correu a abrigar-se na taba.
Mas de que adiantava fugir, se o feitiço da Flor das Águas já o enovelara todo? Lembrava-se do fascínio de seu cantarolar e sofria de saudade.
A mãe do Tapuia adivinhara o que acontecia com o filho: examinava-o e via nos seus olhos a marca da fingida sereia.
Enquanto isso, Yara, confiante no seu encanto, esperava que o índio tivesse coragem de casar-se com ela. Pois — ainda nesse mês de florido e perfumado maio — o índio fugiu da taba e de seu povo, entrou de canoa no rio. E ficou esperando de coração trêmulo.
Então — então a Yara veio vindo devagar, devagar, abriu os lábios úmidos e cantou suave a sua vitória, pois já sabia que arrastaria o Tapuia para o fundo do rio.
Os dois mergulharam e advinha-se que houve festa no profundo das águas.
As águas estavam de superfície tranqüila como se nada tivesse acontecido. De tardinha, aparecia a morena das águas a se enfeitar com rosas e jasmins.
Porque um só noivo, ao que parece, não lhe bastava.
Esta história não admite brincadeiras.
Que se cuidem certos homens.

Clarice Lispector 
(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Sobre a Escrita

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio.

Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

( Clarice Lispector )
(Do livro: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.)


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Alvoroço de festa no céu

Não é que na véspera do Carnaval houve no céu uma festa para os bichos da selva?
Os convites foram entregues por um beija-flor que delicadamente os deixava em cima de corolas de vitorias-regias. O bicho que ia passando via o seu nome no envelope e pulava de alegria: tinha sido contemplado com um programa para o fim de semana!
Mas notaram todos que só recebiam convites os bichos de asa. O que era uma injustiça. Pelo menos foi o que o sapo gordo pensou. Os animais de terra estavam conformados, esperando o dia em que houvesse a festa la na selva mesmo. Mas, como eu disse, o sapo verde não. Todos riam dele e de suas reclamações coaxadas e inúteis.
Ele aproveitou o fim manso de tarde para gritar bem alto e ser bem ouvido.
— Eu também vou!
Os pássaros caçoaram e perguntaram:
Cadê tuas asas, bicho feio?
Foi então que pensou: devo consultar quem é igual a mim, porém mais velho. E realmente, no brejo que ficava entre samambaias e avencas, encontrou um sapo velho e cheio de sabedoria chamado Quá-quáqua, Este se amedrontou com as intenções do sapo
jovem:
— Olhe, é melhor para a sua saúde não sair do chão
e ter água por perto.
Então o sapo jovem disse-lhe:
— O senhor é capaz de guardar um segredo? Pois bem, eu vou dançar lá em cima. Basta-me que o urubu feio leve o seu violão Qua-qua-qua disse-lhe que não o entendia.
O sapo foi falar com o urubu:
— Você vai levar seu violão, urubu?
O urubu, de violão debaixo da asa, nem se dignou a responder.
— Senhor urubu, quer me fazer um único favor? o de ver se estou naquela esquina?
O urubu, meio burro, replicou que, já que era um só favor, ele iria. E não carregou o violão. O sapo mais que depressa entrou no violão e ficou lá bem quieto, embora tivesse uma vontade louca de fumar. O urubu voltou para lhe dizer que não o havia encontrado na
esquina — mas cadê o sapo? Sumira, pensou. E pensou: agora vou para o céu.
Para encurtar a história, o sapo, dentro do violão, chegou ao céu e mais do que depressa pulou para fora e começou a dançar todo feliz. Os pássaros se espantaram, perguntaram ao senhor sapo como havia chegado. Mas a alma do negócio é o segredo e o sapo
só respondeu malcriado:
— É que eu me arranjo sempre!
E entrou de novo sorrateiro no violão para ir embora. Mas o urubu percebeu a coisa e ficou raivoso:
Espertinho, não é? Pois agora mesmo é que você vai voar, vou te soltar no ar. Então o sapo pediu todo manhoso:
— Está vendo aquela pedra e aquele lago? Pelo amor de Deus, deixe eu cair na pedra porque se eu cair no lago eu me afogo!
— Pois é no lago que eu vou te largar, para você morrer!
O sapo, bem feliz, caiu no lago, e salvou-se.
Moral da festa?

Bem, não houve.

Clarice Lispector
(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira


sábado, 1 de agosto de 2015

O negrinho do pastoreiro - Zilka Salaberry

 

Como é mês de agosto e faz um pouco de frio, vou contar uma história que aconteceu nos pampas do sul do país, talvez em Pelotas. Começa não muito bem, pois nesses pampas havia um homem muito rico, mau e sovina: nem restos de comida ele dava. Seu filho eraum guri que herdara sua ruindade. Esqueci de dizer que a história se passa no tempo da escravidão. E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamadoexatamente de Negrinho.

Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira. O homem ruim tinha um cavalo baio muito bonito e veloz e um estancieiro vizinho desafiou-o dizendo: será que esse cavalo baio é bom na corrida? Já se sabe quem iamontar o baio sem sela: o Negrinho, é claro. Mas infelizmente o baio perdeu na corrida e o Negrinho levou uma surra que eu vou te contar. E como se não bastasse, mandaram-no tomar conta da tropilha do patrão. 

Era de noite, Negrinho estava todo machucado e com medo dos bichos que pudessem se achegar. Mas Nossa Senhora ajudou-o a adormecer. Eis senãoquando ouviu- se um tiro de espingarda no ar: os animais se assustaram e se dispersaram pelas campinas. O estampido partira do filho do patrão. Masquem levou nova surra foi o Negrinho. Mandaram-no procurar os cavalos. Enquanto isso a noite estava ainda mais fechada. E não se via cavalo nenhum. Aí o Negrinho pegou um toco de vela que iluminava sua madrinha no oratório do homem ruim. E correu pelas coxilhas montado no baio, à procura dos cavalos dispersos. 

Aconteceu um pequeno milagre: cada vez que a vela abençoada pingava cera no chão, milhares de velinhas iam aparecendo para iluminar a noite. Comesse grande auxílio, o Negrinho encontrou os cavalos. E cansado adormeceu, O homem ruim tinha raiva até do sono do Negrinho e mandou um outro escravo dar chicotadas no garoto e colocá-lo junto de um formigueiro, só para chatear o menino.

Depois o patrão quis ver o moleque que devia estar todo roído de formigas. Mas junto do formigueiro estava o Negrinho perfeitamente sadio, com o baio e a tropilha. Espantado o homem ruim, mais espantado ficou, porque viu junto do escravinho a Nossa Senhora protegendo o Negrinho, O homem ruim se ajoelhou de medo e não de bondade. Quanto ao Negrinho, montado no baio, seguia corrida com a tropilha para sempre.

Para sempre quer dizer que até hoje continua a corrida.

E quem quiser, vê-lo. Quero dizer: se quiser muito mesmo. Só que durante uns dias de cada ano Negrinho some. Deve estar conversando com suas amigas formigas.

Qualquer gaúcho conhece esta história e muitos acham que o Negrinho ajuda a encontrar o que se perdeu, seja objeto, seja amor, seja felicidade sumida.

Será que a moral desta história é que o bem sempre vence? Bom, nós todos sabemos que nem sempre. Mas o melhor é a gente ir-se arranjando como pode e dar um jeito de ser bom e ficar com a consciência calminha.
Clarice Lispector


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Curupira, o danadinho

Neste mês de julho vou- vos contar história
esquisita de um ser mais esquisito ainda. Os índios
chamam-no de Curupira. Começo por descrevê-lo: é
feio que nem o Tinhoso e peludo que nem um urso,
mas pequeno. Já se viram dentes verdes? Pois o
Curupira tem. Sem falar nas orelhas agudas. Ele não é
caranguejo, porém seus pés são virados para trás,
como se ele fosse andar de marcha a ré. Ninguém nunca sabe onde ele está. Fugindo sempre? Talvez. E de repente surge em assustadora aparição. Quando vai embora não deixa rastro na terra. Só se ouve um sussurro na mata — podem estar certos: é ele. E além do sussurro ouvem-se as marteladas no tronco das árvores. E que, sem ninguém lhe mandar, ele as vigia para saber se agüentam tempestades e borrascas.
Que ser misterioso. Pois que também é sábio: conhece, ao olhar apenas, as plantas que curam doença de bicho. Porque ele protege os animais contra malefícios e caçadores. E faz tudo isso sem deixar marcas. Só fica no ar um perfume de mata virgem que é o seu. Mas o danadinho raramente auxilia pessoas, esse pequeno
moleque.
As vezes simpatiza com um ou outro caçador e logo o convida para morar na floresta. Como o Saci-Pererê, também pede fumo e em troca do que lhe é dado ensina os segredos da selva.
Também sabe se vingar dos índios que, com flechas, ferem um bicho indefeso. Então o Curupira o atrai para caminhos sem fim e eis o caçador enganado, tonto e perdido. É verdade que pede antes a um caçador que não mate animais dos que vivem em grupo, porque o grupo ficará com saudade deles. Mas, ai de nós se o índio não cede! Não tem o perdão do Curupira. Espalha fogo e quase deixa o índio bem assado. Os caçadores temem esta espécie de gnomo monstro e suas vinganças.
Tudo o que ele pede, se não dão atrai sorte ruim.
Me dá fumo! diz o Curupira para o índio jangadeiro. E se este nega, a jangada é virada para o fundo das águas. Tem qualquer parentesco com o Saci-Pererê.
Mas enquanto este gosta de se divertir com os outros, com o Curupira não se brinca Por exemplo: coitado de quem penetra na sua mata que serve de casa. A vingança não tarda.
Não se sabe é explicar por que ele é tão bom com os bichos E, se não está em guerra, vive muito bem nas profundezas distantes da floresta.




Clarice Lispector 

(Doze Lendas Brasileiras)


Editora Nova Fronteira







segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma festança na floresta



Estamos no mês de junho, as fogueiras de São João se acendem, balões sobem, já há friozinho e aconchego. Dá para comer batata-doce à meia-noite com café tinindo de quente.
Mas me disseram que a festa não é só nossa. Pois não é que ia haver uma festa da bicharada na selva? Ecalculei que isso acontecesse no mês de nossos próprios folguedos. Pelo menos é o que garantem os índios da tribo Tembé.
Foi assim: os animais das matas até que estavam ocupados e calmos em relação a seus deveres, pois o dever do animal é existir. Mas eis senão quando surgiu no ar um boato que logo se espalhou alvissareiro num diz-que-diz assanhado. Vinha esse boato trazido pelo canto do sabiá. Como o sabiá, a quanto se sabe, canta pelo mero prazer de cantar, ficaram os bichos em dúvida sobre se era ou não verdade.
E — de repente — começou a chover convite para a tal festança. Quem convidava não dizia quem era, mas todos desconfiaram que a idéia vinha da rainha das selvas brasileiras, a onça, manda-chuva que era.
Todos os bichos foram convidados, garantindo-se que na ocasião seria abolida a ferocidade. Até a mãecoruja, que de tão séria e sábia até óculos usava, foi convidada com os seus filhotes.
Quanto às filhas do macaco, doidas para namorar e enfim casar, enfeitaram-se tanto e com tantas bugigangas que pareciam umas — é isso mesmo,pareciam umas verdadeiras macacas.
E quem pensa que a cobra faltou por ser tão nojenta está enganado: apareceu fazendo salamaleques com o corpo escorregadio para chamar atenção.
A noite estava toda iluminada por milhares de vagalumes, pela lua silenciosa e pelas estrelas úmidas.
Quanto à orquestra, fiquem certos de que era da melhor qualidade: uma turma de tucanos encarregou-se de tocar em valsa os mais belos grunhidos da mata.
A bicharada estava acesa de alegria, O papagaio foi muito aplaudido quando berrou uma canção alegre, e as macacas casadoiras, penduradas pelos rabos nas árvores, estavam certas de que eram grandes bailarinas.
Bem, a coisa estava no máximo de animação. Mas a onça estava inquieta, doida para atacar. E como não fosse permitida nessa noite a carnificina, ela começou a ser feroz com a língua viperina. Então cantou: “Dona Anita é gorda e roliça que nem uma porca e tem cor de rato.” A Anta danou-se e retirou-se.
A onça, vendo que tinha tido sucesso, cantou uma ofensa horrível contra o jabuti, dizendo que este estava coberto de mosca varejeira. Tanto que o jabuti ofendido foi embora. Depois a onça falou: “Vejam que decote indecente o das filhas do macaco.”As macacas ficaram fulas da vida e só não saíram de lá porque a esperança de arranjar noivo é a última que acaba.
Mas acontece que havia entre os animais o deus dos veados, Arapuá-Tupana, que resolveu acabar com a empáfia da onça e para vencê-la pôs-se a cantar. Os bichos, sabendo que quando o ouvissem morreriam, taparam os ouvidos. Arapuá-Tupana afinal foi embora e a bicharada não morreu.

É. Mas os animais haviam perdido o dom da fala, ninguém secompreendia mais. E isso até o dia de hoje.
Porque grunhir ou cantar não diz nada. Tudo por causa da onça linguaruda.


Clarice Lispector 
(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira




quinta-feira, 30 de abril de 2015

O pássaro da sorte



Trata-se do uirapuru, pássaro encantado da sorte e que tem como moradia as ricas florestas da Amazônia.
A história é um pouco triste. Mas o canto dessa ave é tão plangente e mavioso que vale a pena contar.
Começa com um índio tocando flauta na selva. E as índias jovens ouviam-no. Daí para procurar ver quem era o guapo índio que a tocava foi um só passo.
O segundo passo foi encontrar o músico e cair para trás com uma bruta decepção. Elas, tolinhas, achavam que coisa bonita só pode vir de gente bonita. E caprichosas, malcriadas, empurraram o índio feio para fora daclareira. Humilhado, ele então fugiu.
Na mesma hora as índias ouviram uma outra flauta tocada com delicadeza e doçura. E pensaram com esperança que talvez o tocador dessa nova flautafosse um índio bonito. Seguiram pelas sendas da floresta, guiadas pelo cântico que cada vez parecia mais próximo. E não é que depararam, não com um índio, mas com um passarinho pousado num galho de árvore frondosa? Era o pássaro uirapuru. Uma das índias, a mais formosa e esguia, era também a melhor caçadora. E, como as outras, quis ferir o pássaro para que ele não fugisse e só cantasse para ela. Com arco e flecha, preparou-se. E, é claro, a ave caiu do galho.
Agora vem uma surpresa, tanto para as índias como para nós: uma vez por terra, o pássaro transformou-se num rapaz belíssimo.
Este índio, com um sorriso manso, dirigiu-se para a sua caçadora, enquanto todas as outras índias rezavam pela sua atenção e amor.
Estava tudo bem. Mas a primeira flauta começou a soar novamente: era a do índio feio.
As moças sabiam que ele queria se vingar dos maus tratos e procuraram rodear o índio bonito para escondê-lo. Mas o indio feio mandou rápido sua flecha, em direção do peito varonil do rival, só para assustá-lo.
E não é que aconteceu um encantamento milagroso?
Aconteceu, sim: o rapaz bonito se transformou num pássaro invisível, mas presente pelo seu canto. E as índias passaram, mesmo sem ver, a ouvir o trinado feliz.
Como é que se espalhou que o uirapuru dá sorte?
Ah, isso não sei, mas que dá, dá!

Clarice Lispector

(Doze Lendas Brasileiras)Editora Nova Fronteira


quarta-feira, 15 de abril de 2015

A Cozinheira Feliz, a Grandeza da Sinceridade

“Therezinha meu amor. Estás sempre em meu coração. Desde o momento em que a vi meu coração tornou-se cativo de seus encantos. Ao vê-la meiga e bela senti minh´alma perturbada minha vida até então vazia e triste. Tornou-se cheia de luz e esperança acesa em meu peito a chama do amor. O amor que despertou em mim. Therezinha queridinha do coração é iluminado pela sua pureza e encontra em meu coração a grandeza de minha sinceridade. Que felicidade podemos encontrar um dia num coração que pulse junto ao nosso, irmanados nas doçuras e agruras da vida um coração amigo que nos conforte uma alma pura que nos adore e leve ao céu doce balada de amor a mulher querida com que sonhamos. Eternamente seu apaixonado Edgard. Da Therezinha querida peço-lhe. Resposta. Estrada São Luiz, 30-C, Santa Cruz é o meu Endereço.”

( Clarice Lispector )
(Para não esquecer – Página 54)


terça-feira, 14 de abril de 2015

Atenção ao Sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas. No sábado é que as formigas subiam pela pedra. Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é? No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde. Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais. Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Não é propriamente rosa que eu quero dizer. (…)

( Clarice Lispector )

(Para não esquecer – Página 97)



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Eu sou um ser totalmente passional.....


Eu sou um ser totalmente passional.
Sou movida pela emoção, pela paixão...
tenho meus desatinos...
Detesto coisas mais ou menos...
Não sei conviver com pessoas mais ou menos...
Não sei amar mais ou menos...
Não me entrego de forma mais ou menos...
Se você procura alguém coerente,
sensata,politicamente correta,
racional,cheia de moralismo...
ESQUEÇA-ME!"

Se você sabe conviver com pessoas
intempestivas, emotivas, vulneráveis,
amáveis, que explodem na emoção...
ACOLHA-ME!
Se você se assusta com esse meu jeito de ser...
AFASTE-SE!
Se você quiser me conhecer melhor...
APROXIME-SE!
Se você não gosta de mim,
IGNORE-ME!
E quando eu partir.....
NÃO CHORE!

Clarice Lispector


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Precisa-se


Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector


quarta-feira, 8 de abril de 2015

As aventuras de Malazarte

Ah, mês de abril que delícia de existir! Também para Pedro Malazarte.
Vou contar: como o pai tinha morrido, a mãe dividira em pedaços a casa toda, dando-os a cada filho.
A Pedro Malazarte coube uma porta. Ele pensou: com esta porta conquistarei o mundo. Realmente, em breve viu um urubu pousado num burro morto. Mas que depressa jogou a porta em cima deles — e como o urubu ficou manco, foi fácil pegálo. Para que queria ele um urubu? Lá disso sabia ele. E quando sentiu no ar oseflúvios de um jantar magnífico, bateu à porta da casa de uma senhora, gulosa e sabida, que estava
preparando para si mesma um banquete, escondido do marido que fora viajar. Malazarte foi irritadamente expulso pela sabidona e sua criada. Então, com o auxílio da porta encostada na parede, subiu ao teto e de lá viu embaixo comida boa para valer. Tinha leitão assado, peru, e tudo o mais que delicia um homem. Foi quando o marido chegou, inesperadamente. A mulhermatreira lamentou.se: se eu soubesse que você vinha eu preparava coisa boa de se comer mas como não te esperava só tenho carne seca, feijão ralo e farinha
morrinhenta...
Aí, Malazarte apresentou-se de novo com o seu urubu, sabendo que o marido não lhe recusaria um pouco do minguado jantar. Mal começam a comerquando Malazarte deu, bem disfarçado, uma cutucada no urubu, que gemeu.
— Por que é que ele está se lamentando? perguntou o dono da casa.
— Está me dizendo umas novidades, respondeu Malazarte. O meu urubu, ao contrário dos outros, fala e está me contando que sua mulher lhe guardou umleitãozinho assado de surpresa...
A mulher teve medo de Malazarte e disse: oh, urubu danado, estragou a surpresa! Tenho mesmo este leítãozinho para você...
Daqui a pouco o urubu gemeu de novo, o que fez Malazarte dizer:
— O urubu intrometido, pára de me contar?
— O que é que ele está contando?
— Que tem peru recheado.
— Meu maridinho, essa era a outra surpresa que o urubu desaforado estragou. Mas coma um pouco deste peru. E tenho doces, frutas, bebidas...


Como era 1º de abril, dia de se enganar os outros,Malazarte vendeu falsamente o precioso urubu ao dono da casa para lhe servir de espião.
Bem alimentado, Malazarteprosseguiu caminho com a porta debaixo do braço.
Moral: mais vale uma portadesvalida e esperteza de Malazarte, que uma casa inteira para quem não temarte.

Clarice Lispector

(Doze Lendas Brasileiras) Editora Nova Fronteira