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sábado, 1 de agosto de 2015

O negrinho do pastoreiro - Zilka Salaberry

 

Como é mês de agosto e faz um pouco de frio, vou contar uma história que aconteceu nos pampas do sul do país, talvez em Pelotas. Começa não muito bem, pois nesses pampas havia um homem muito rico, mau e sovina: nem restos de comida ele dava. Seu filho eraum guri que herdara sua ruindade. Esqueci de dizer que a história se passa no tempo da escravidão. E vou falar de um escravinho mais negro que carvão chamadoexatamente de Negrinho.

Não conhecia pai ou mãe e dizia que Nossa Senhora era sua madrinha. Apanhava do patrão e do filho que não era brincadeira. O homem ruim tinha um cavalo baio muito bonito e veloz e um estancieiro vizinho desafiou-o dizendo: será que esse cavalo baio é bom na corrida? Já se sabe quem iamontar o baio sem sela: o Negrinho, é claro. Mas infelizmente o baio perdeu na corrida e o Negrinho levou uma surra que eu vou te contar. E como se não bastasse, mandaram-no tomar conta da tropilha do patrão. 

Era de noite, Negrinho estava todo machucado e com medo dos bichos que pudessem se achegar. Mas Nossa Senhora ajudou-o a adormecer. Eis senãoquando ouviu- se um tiro de espingarda no ar: os animais se assustaram e se dispersaram pelas campinas. O estampido partira do filho do patrão. Masquem levou nova surra foi o Negrinho. Mandaram-no procurar os cavalos. Enquanto isso a noite estava ainda mais fechada. E não se via cavalo nenhum. Aí o Negrinho pegou um toco de vela que iluminava sua madrinha no oratório do homem ruim. E correu pelas coxilhas montado no baio, à procura dos cavalos dispersos. 

Aconteceu um pequeno milagre: cada vez que a vela abençoada pingava cera no chão, milhares de velinhas iam aparecendo para iluminar a noite. Comesse grande auxílio, o Negrinho encontrou os cavalos. E cansado adormeceu, O homem ruim tinha raiva até do sono do Negrinho e mandou um outro escravo dar chicotadas no garoto e colocá-lo junto de um formigueiro, só para chatear o menino.

Depois o patrão quis ver o moleque que devia estar todo roído de formigas. Mas junto do formigueiro estava o Negrinho perfeitamente sadio, com o baio e a tropilha. Espantado o homem ruim, mais espantado ficou, porque viu junto do escravinho a Nossa Senhora protegendo o Negrinho, O homem ruim se ajoelhou de medo e não de bondade. Quanto ao Negrinho, montado no baio, seguia corrida com a tropilha para sempre.

Para sempre quer dizer que até hoje continua a corrida.

E quem quiser, vê-lo. Quero dizer: se quiser muito mesmo. Só que durante uns dias de cada ano Negrinho some. Deve estar conversando com suas amigas formigas.

Qualquer gaúcho conhece esta história e muitos acham que o Negrinho ajuda a encontrar o que se perdeu, seja objeto, seja amor, seja felicidade sumida.

Será que a moral desta história é que o bem sempre vence? Bom, nós todos sabemos que nem sempre. Mas o melhor é a gente ir-se arranjando como pode e dar um jeito de ser bom e ficar com a consciência calminha.
Clarice Lispector


quarta-feira, 1 de julho de 2015

Curupira, o danadinho

Neste mês de julho vou- vos contar história
esquisita de um ser mais esquisito ainda. Os índios
chamam-no de Curupira. Começo por descrevê-lo: é
feio que nem o Tinhoso e peludo que nem um urso,
mas pequeno. Já se viram dentes verdes? Pois o
Curupira tem. Sem falar nas orelhas agudas. Ele não é
caranguejo, porém seus pés são virados para trás,
como se ele fosse andar de marcha a ré. Ninguém nunca sabe onde ele está. Fugindo sempre? Talvez. E de repente surge em assustadora aparição. Quando vai embora não deixa rastro na terra. Só se ouve um sussurro na mata — podem estar certos: é ele. E além do sussurro ouvem-se as marteladas no tronco das árvores. E que, sem ninguém lhe mandar, ele as vigia para saber se agüentam tempestades e borrascas.
Que ser misterioso. Pois que também é sábio: conhece, ao olhar apenas, as plantas que curam doença de bicho. Porque ele protege os animais contra malefícios e caçadores. E faz tudo isso sem deixar marcas. Só fica no ar um perfume de mata virgem que é o seu. Mas o danadinho raramente auxilia pessoas, esse pequeno
moleque.
As vezes simpatiza com um ou outro caçador e logo o convida para morar na floresta. Como o Saci-Pererê, também pede fumo e em troca do que lhe é dado ensina os segredos da selva.
Também sabe se vingar dos índios que, com flechas, ferem um bicho indefeso. Então o Curupira o atrai para caminhos sem fim e eis o caçador enganado, tonto e perdido. É verdade que pede antes a um caçador que não mate animais dos que vivem em grupo, porque o grupo ficará com saudade deles. Mas, ai de nós se o índio não cede! Não tem o perdão do Curupira. Espalha fogo e quase deixa o índio bem assado. Os caçadores temem esta espécie de gnomo monstro e suas vinganças.
Tudo o que ele pede, se não dão atrai sorte ruim.
Me dá fumo! diz o Curupira para o índio jangadeiro. E se este nega, a jangada é virada para o fundo das águas. Tem qualquer parentesco com o Saci-Pererê.
Mas enquanto este gosta de se divertir com os outros, com o Curupira não se brinca Por exemplo: coitado de quem penetra na sua mata que serve de casa. A vingança não tarda.
Não se sabe é explicar por que ele é tão bom com os bichos E, se não está em guerra, vive muito bem nas profundezas distantes da floresta.




Clarice Lispector 

(Doze Lendas Brasileiras)


Editora Nova Fronteira